sábado, janeiro 06, 2007

RECORDAR É VIVER


Hoje fui a uma entrevista a fim de arranjar um emprego, para as minhas horas livres. Foi uma autentica romaria de saudade. A entrevista era nos Olivais. Olivais Sul como agora é designado. No tempo em que lá vivi, era Olivais somente..... Teria que estar ás 13h no n.º 56 da rua Cidade da Beira. Não sabia onde era, no meu tempo por ali só havia quintas, e oliveiras. Fui cedo, para descobrir o local, e, chegar a horas á entrevista, perguntei ao motorista da Carris, onde ficava a dita rua, ele parecia não saber ao certo. Nesta bem fadada terra, se alguém souber alguma coisa vai preso, por certo. Desci do autocarro, na rua de Nampula, passei nas ruas de Quelimane, João Belo, Lourenço Marques, Inhambane.......No espaço de uma hora percorri, Moçambique do Rovuma ao Maputo, até que chaguei á rua Cidade da Beira. Esta rua fica perto do lindo Vale do Silêncio, esse sim, é do meu tempo. Para fazer tempo, pois era ainda muito cedo, entrei num café, e, quando estava tomando a minha bica, entrou um senhor, muito bem disposto e galhofeiro. A empregada começou a brincar com ele, e, ele acabou por dizer que tinha 80 anos. (Não lhe daria mais de 50) Como boa Moçambique, logo entrei na conversa, perguntando se ele era daqueles sítios, ao que ele respondeu: - Sou aqui nascido e criado minha senhora, já lá vão 80 anos.... - Então, deve lembrar-se da Quinta dos Serrões... - Se me lembro! Havia lá uma fábrica de Curtumes, trabalhei lá - Conheceu portanto, o meu avô, ele era o encarregado da fábrica. - Se conheci. Era boa praça esse sr. Paulino, era assim o nome dele não era? - Era sim. Eu fui para essa quinta, quando tinha 18 meses, vivi lá até perto dos 14 anos.... - Ai minha senhora, isso é que eram tempos...! - É verdade! Sabe? Estes Olivais de hoje não me dizem nada, já nem sei onde estou. - Aqui é a quinta do Patacão, lembra-se? - Lembro sim, vim muitas vezes aqui apanhar caracóis, com a Rosita da Alaguesa. - A Rosita? A senhora conheceu a Rosita? - Sim. Fomos criadas juntas. Nunca mais a vi! - Ela mora na Rua Alves Gouveia vejo-a muitas vezes. - Quando estiver com ela, diga-lhe por favor, que encontrou a Belinha dos Serrões, e que ela lhe manda um grande abraço está bem? - Minha senhora, ainda hoje lhe vou dar esse abraço, fique descansada! - O senhor lembra-se, dos bailaricos dos Santos Populares, que havia no Rossio? (Largo da Viscondessa) - Se me lembro... Eram outros tempos. Quantas vezes lá ouvimos os Lírios, no tempo do Jacinto Lopes... - É verdade. Ele cantava tão bem! Havia também os Mensageiros do Ritmo, com o João Loureiro....Era a época do give, das rumbas, o xa-xa-xa, o tango, enfim nesses tempos não eram ainda consideradas danças de salão, dançavam-se em todos os bailaricos... - Minha senhora, nem imagina, quanto me alegro, por poder falar desses tempos, com quem os viveu...Esta mocidade de agora, tem tudo o que nós não tivemos, mas com tanta coisa, que nem sabíamos que existia, nós fomos muito mais felizes. Fala-se da fome que se passava nesse tempo...Eu nunca tive fome! Haviam tantas árvores de fruta, e fruta da boa, sem corantes nem conservantes, como a de agora. Ia-mos á xinxada, e enchia-mos a barriga. Os donos faziam de conta que não nos viam, e no fundo era a maneira da rapaziada se divertir. Não havia droga, nem nada disto que o dito progresso nos trouxe. Eram quase horas da minha entrevista. Com alguma pena, pois havia ainda tanta coisa a recordar ,despedi-me do senhor, dizendo: - Bem tenho de ir. Talvez nos encontremos por aqui mais vezes. - Aí minha senhora. Oxalá assim seja. Hoje foi um dos dias mais felizes que tive. É tão bom recordar o passado! O senhor tinha lágrimas nos olhos, e eu também. Afinal, não sou só eu que tenho saudades, há mais quem tenha. Acrescento, que consegui o tal emprego. Fico duas vezes feliz. Uma porque o consegui, outra porque vou ter oportunidade de voltar a ver aquele senhor, que tanto gosta, como eu, de recordar o nosso lindo bairro dos Olivais, quando ele tinha realmente oliveiras, e, muitas quintas, com alegres camponesas, com quem eu cantava ao desafio. Foi um lindo dia para mim..... Arroja-21-7-2004 Maria Isabel Galveias

ROSALINDA

Rosalinda..., como o destino fora irónico.... Quem lhe pôs semelhante nome, não reparou por certo, o quanto ela não era Rosa, e muito menos linda,bem pelo contrário. Era um moça gorda, disforme, com um rosto a atirar para o grotesco, somente os seus olhos eram lindos, sim, os olhos de Rosalinda eram dum cambiante de cores entre o azul, e o verde, passando ocasionalmente pelo cinza. Expressivos, risonhos, francos, sinceros e amigos, mas era tudo. Embora feia, Rosalinda era uma garota amorosa, amava tudo e todos, amava qualquer coisa, só não amava a si própria. Tinha vivido na esperança de encontrar alguém que a amasse, risonhamente dizia: -Conheço tantas mulheres feias, gordas e desengonçadas que arranjam quem as ame,porque não hei de eu arranjar alguém? Só que o tempo passou, conheceu alguns rapazes que lhe juraram amor, porém todos se aproveitaram do seu doce coração, usaram e abusaram da sua bondade, e partiram, deixando Rosalinda, triste, inconsolável na sua solidão. Quem conheceu Rosalinda, de perto, como eu, teve por certo ocasião de perceber, que, por detrás daquela figura quase grotesca, se alojava uma alma linda, doce e sensível, abnegada, capaz dos maiores sacrifícios para ajudar quem lhe estava próximo; O seu olhar meigo, apenas pedia um pouco de amor, mas nunca o conseguiu de ninguém. E lá foi vivendo Rosalinda, vendo os dias passando, o tempo se escoando, sem ter alguém que lhe desse o devido apreço. Inteligente, com uma cultura geral apreciável, era de certa forma invejada pelas colegas, que muitas vezes se valiam do seu valor, para em circunstâncias várias serem por ela auxiliadas. Pobre Rosalinda, quando precisava de auxílio, estava sempre sozinha, só comigo contava, só comigo desabafava, eu era a sua única amiga, desde os bancos da escola. Chegaram as novas tecnologias, e, Rosalinda, acompanhou a evolução dos tempos. Curiosa, enquanto não aprendeu a mexer nos computadores, não descansou. Veio a internet, e, lá estava Rosalinda na vanguarda..... A net era a sua companhia, lá conheceu muita gente, e, curiosamente, encontrou quem a amasse... Pudera dizia risonha, não me conhecem... Espantoso, quem a conheceu através da net, achava Rosalinda uma mulher linda.... Teve vários pretendentes, com todos flertou, brincou e se divertiu. Rápida na resposta, inteligente no uso das palavras, era o encanto e a força motriz de qualquer sala de conversa, dinamizava tudo e todos. Pediam-lhe fotos, e aí, ao verem aquele rosto grotesco onde só os olhos brilhavam, houve alguns que continuaram sendo seus amigos, mas os namorados, esses deixavam de lhe escrever.....embora ela não os levasse a sério, sofria com a atitude deles. Um dia, um pediu-lhe para falar com ela no messenger, ela acedeu. Ele falava-lhe de amor, com tanta ternura, que, ela sem querer se deixou envolver, apaixonando-se de verdade. Ele vira as fotos dela, e continuava a falar de amor. Rosalinda, sonhou então, que finalmente encontrara a forma do seu sapato. Vivia empolgada, anelante, esperando a hora dele chegar e lhe falar daquele amor tão sonhado. Era feliz. Tão feliz, que, eu, não fui capaz de a contradizer e aconselhar, nem ela admitia conselhos, nunca a vira tão entusiasmada com alguém. Até que um dia, ela esperou, mas ele não apareceu. Qualquer coisa o impediu, dizia ela, não querendo acreditar que lhe mentira, que fora mais um que com ela brincara. Passou o tempo, ela todos os dias aquela hora de sempre lá estava. Mas ele não aparecia. Nunca mais apareceu. Desesperada, telefonou-me a chorar, dizendo: Amiga, porque me fez isto? Eu não pedi nada, nem o conhecia, porque brincou assim com os meus sentimentos mais puros? Nunca a vira assim. Ontem, telefonou-me uma vizinha de Rosalinda, preocupada, pois já não a via há alguns dias. Telefonei-lhe, em vão, ninguém me atendeu, aflita, fui a sua casa, chamei os bombeiros e a polícia, arrombamos a porta, e lá estava Rosalinda, deitada na sua cama, inerte, morta. Havia uma tal paz no seu rosto, que, paradoxalmente, estava bonito. A morte dera razão ao nome de Rosalinda. Aquele amor cibernético, que a iludira e lhe mentira, foi a gota de água, no seu cálice de amargura, pusera fim á sua triste vida.... Como as pessoas, podem ser más e ignorantes.... Como se podem esquecer, que, para lá da tela, há certamente alguém, que embora tratado com virtualidade, não é tão virtual assim. Existem para além da tela, pessoas, com uma alma e um coração, e, se alguém se apaixona por essa alma e esse coração, porque se importam com o "envelope" que os envolve? Rosalinda, não era Rosa nem Linda, por fora.... Mas era uma Rosalinda por dentro........... Pena ninguém ter reparado! Arroja, 31 de Julho de 2004 Maria Isabel Galveias

FIDILIDADE

Era uma tarde de Verão, já perto do crepúsculo, sentados á porta de minha casa, estavam os meus pais, o Zé Simões e o Libanio . Tinham acabado as festas de Stº António. Estavam todos muito animados. Cada um contava uma graçola. Eu estava como sempre afastada do grupo. Aquelas conversas sem consistência não me interessavam. Subitamente, aparece um cão perdigueiro, castanho como uma estrela branca na testa. Aproximou-se de mim, como quem pede amizade. Fiz-lhe uma festa, perante o olhar horrorizado de todos, pois o animal era estranho e podia morder-me. Mas não, começou a abanar a cauda, e a repuxar os beiços, como querendo rir. Notando este movimento, o Libeneo comenta: - Ó sor Galveias, já viu este cão? Parece que está a rir... - Como se chamará ele, pergunta meu pai. O Libeneo, começa então a dizer alguns nomes, o cão respondeu ao nome Tejo. - É Tejo sor Galveias, diz o Libeneo todo contente por ter “adivinhado” o nome do cão. Ri-te Tejo! Ri-te, e o Tejo ria-se.... Tejo, foi adoptado, mais por mim que pelos meu pais, e lá ficou em nossa casa. Era muito meu amigo. Lembro-me que o meu pai de manhã, vinha para o Monte e chamava-o, ele ia; Chegados lá, o meu pai punha-lhe o saco do pão e o jornal na boca dizendo: - Vá, vai levar á menina, e o Tejo lá vinha, correndo, para me entregar a encomenda; devo salientar que, a dita só a mim era entregue, pois ele não a dava a mais ninguém. Quando eu pegava no meu cobertor e no livro, ele já sabia, começava a abanar o rabo e corria em direcção ao montado, direitinho ao sobreiro onde eu costumava sentar-me a ler, e ali ficava deitado, com a cabeça entre a patas, até á hora de regressarmos. Recordo, que um dia adormeci. Acordei com os latidos do Tejo, que ao tempo que ladrava, me puxava uma manga, acordei e que vi eu? Um lagarto, tão assustado, como eu fiquei, e como o Tejo estava, julgo que receando que o lagarto me fizesse mal, pobre bichinho....nem se mexia. Ás vezes, eu ia até ao Monte, o meu pai logo que via o Tejo dizia: - Vem aí a minha filha, já aqui está o cão, ela não deve estar longe. Muitas vezes, a minha mãe, que era muito doente, tinha que ficar hospitalizada, meu pai saía por vezes durante uma semana, eu ficava sozinha em casa. Sozinha não, o Tejo estava sempre comigo, entrava em casa, deitava-se aos pés da cama e, era o meu guardião. Se eu saísse já depois de escurecer, e, ele visse algum vulto, ou luz de bicicleta, começava logo a rosnar...Nem os meus pais podiam levantar-me a voz, o Tejo não gostava. Um dia em que o meu pai levantou a mão pra me bater, ele quase o mordeu. Foi o Tejo, o meu companheiro durante muito tempo. Já não sei quanto, um ano dois, não me lembro. Um dia, aquele que viria a ser meu marido, foi lá a casa, ao ver o cão disse: - De onde veio este cão? - Não sei, responde o meu pai, apareceu aí, afeiçoou-se á minha filha e não a larga pra onde quer que ela vá. - Este cão, é do meu primo Alfredo Maneta. Ele tem andado doido á procura dele, até ofereceu uma recompensa a quem o encontrasse, amanhã já lhe digo que o cão está aqui. - É pá, diz meu pai, tens a certeza? É que o animal, parecia não ter dono, é estranho, os animais sabem sempre o caminho de casa, principalmente os cães. - Tenho a certeza, respondeu o “meu futuro marido” - No dia seguinte lá apareceu o dono do cão. Tejo não se mostrou muito contente, quase o ignorou. Porém, o dono chamou-o: Nero! (ao ouvir aquele nome pensei que aos ouvidos dele, Tejo era o nome mais parecido com Nero) Vem ao dono. Um pouco triste ele lá foi para casa do dono. Eu fiquei muito triste. O meu fiel amigo fora embora. Um dia, oiço uns latidos de alegria, era o Tejo. Chegou-se a mim, lambeu-me as mãos e o rosto, gania e latia de contentamento. Ficou uns dias, depois foi-se embora. Aconteceu assim durante muito tempo...Ia e vinha, sem que o chamasse ou mandasse embora. Até que numa das suas viagens, foi atropelado por um camião e morreu. Chorei muito. Ainda hoje me vêm lágrimas aos olhos, quando lembro aquele amigo, fiel, que, nunca mais se esqueceu de mim., ao contrário do que acontecia em relação ao seu verdadeiro dono.... Arroja, 16 de Julho de 2004 Maria Isabel Galveias
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quinta-feira, janeiro 04, 2007

SIMBIOSE

Tinha sido um dia, daqueles!!! Um dia em que tudo me fazia lembrar os bons momentos já passados, e, me fazia sentir uma enorme solidão, um enorme desejo de amar e ser amada. Á noite, estive como de costume, agarrada ao meu companheiro fiel, o meu PC. Porém, por qualquer circuntãncia, estava inquieta. Era meia noite. .algo me impeliu a sair. Ir até ao meu monte mágico, aquele onde tudo me parece perfeito, e, onde eu consigo acamalmar e retemperar forças. Carregar as baterias como eu costumo dizer. Como sempre tudo era calma e magia. Aquele lugar tem para mim , o fascinio do sonho. Fiquei dentro do meu carro a olhar as estrelas, que não sei porquê , ali parecem ser maiores, mais lindas e com mais luz. De súbito, os meus olhos fixaram-se numa, que parecia se r, de todas a maior, a mais brilhante, como se sírius se estivesse a dirigir a mim. Começou descendo, descendo, e quando estava já perto muito perto, tu desceste dela envolto numa luz azul incandescente. Olhei-te e verifiquei que tinhas os braços estendidos para mim, como numa súplica de entendimento, de simbiose, de ternura e de sonho. Aproximáste-te, demos as mãos, ficamos ambos estáticos olhando-nos, sem falar, apenas as nossas mãos se apertavam e os nossos dedos se entrelassaram, como se fossem membros do mesmo corpo. Um só corpo. Começas-te a puxar-me , em direcção á estrela brilhante, eu, sentia uma leveza e uma calma, como não sentia há muito tempo. Só nessa altura a tua voz suave, terna e doce me disse baixinho: - vem! Não receies. Verás que no nosso mundo de encanto e magia,tudo é como tu gostas. Lá só existe o sonho etéreo Onde tudo é perfeito. Vem! Eu deixei-me conduzir por ti, como que deslizando no espaço, fomos os dois sem palavras, subindo....... .subindo, olhava para baixo e via o meu monte cada vez mais longe.... Longe.....longe........ De súbito uma luz mais forte me feriu a vista, fazendo-me piscar os olhos, então deixei de sentir a tua mão na minha. Pareceu-me cair com brusquidão num poço, onde , sem saber como, magoei um braço. Abri os olhos, era dia. O sol iluminava-me.fora ele que m me acordara, tinha passado a noite no meu carro adormecida sobre o volante, daí a dor no braço. Além da dor no braço, senti mais aguda a dor da solidão, e, a tristeza de que só existe simbiose perfeita no sonho. Lágrimas cristalinas corriam-me nas faces, não eram de tristeza, eram pela felicidade plena sentida nessa nóite, com o contacto amigo da tua mão, fazendo-me sentir querida e importante. Pela primeira vez na vida, alguém tinha querido partilhar comigo, toda a magia , sentida numa simbiose perfeita. Por esta noite mágica te ficarei eternamente grata................ Maria Gsabel Galveias Piedade, 12 de novembro de 2000