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sexta-feira, agosto 19, 2011

VIDA E MORTE NO SANATORIO, ENTRE 1944 E 2009





Olá amigos, Feliz Ano Novo para todos. Pois é, tenho andado meio preguiçosa, mas hoje, venho aqui colocar o relato de 2 casos nada de especial, mas que são testemunhos, de fé, e de descrença, com as consequências que daí podem advir. Este tema foi sugerido pelo nosso amigo Ice, e esta é a minha história, verídica, e que eu acompanhei de muito perto, vamos lá então
Vida e morte num sanatório entre 1944 e 2009 Conheci a Milú tinha eu na altura 18 meses, e ela 12 anos. Quando digo conheci, aos 18 meses, não se pode conhecer alguém, e para mais eu, que era cega de nascença, por aquela altura. A Milú era filha única, dum casal formado por pessoas rudes, e por ventura brutas também, talvez pelo facto de que usavam e abusavam do vinho, coisa que na época era absolutamente normal. Era uma menina, muito bonita, que despertou a atenção dos meus tios, solteiros na altura. Como tudo começou, eu não sei bem, mas sei que ela, devido a uma gripe, contraiu o bacilo de da tuberculose, aos 13 anos de idade. Lembro-me de que namorou o meu tio Abílio, e que entre eles houve relações sexuais, o que na altura era um escandalo. Pois moça a quem isso acontecesse, ficava marcada para toda a vida, se o namorado por qualquuer razão não quizesse casar com ela. Foi exactam ente isso que aconteceu. Ela dizia ter sido o tio Abílio o primeiro e único, ele dizia ser mentira, e que o primeiro fora o tio Zé. Enfim como foi ou não foi, eu não sei. Só sei que a grande paixão dela, foi o tio Abílio. Bastante doente, com hemoptizes continuas, foi mandada para o Sanatório do Caramulo, onde passou alguns meses. Mandava fotografias, com outras doentes, mas ela era sempre triste. Voltou do sanatório, e como a paixão solapada, pelo Abílio era grande, e a tornava amarga, ela era por vezes mal educada e respondona para com os pais, que lhe davam grandes sovas. Eram aliaz frequentes as zaragatas naquela família. Se a Milú tossia, a mãe ralhava com ela, o pai ralhava com a mãe, e os meus avós ralhavam com os pais, era uma briga constante rsrsrsr. Depois desta explicação, realço apenas o facto de a Milú, ser uma pessoa, amarga, sem fé nem esperança. Vivia obsecada com o meu tio, e para além disso nada mais importava. Seca, desprendida, invejosa, nunca aceitou a sua condição de doente, nem nunca quis aceitar a cura, que por várias vezes se avizinhou. Ela era e queria ser, a coitadinha, a desgraçadinha, infeliz e doente. O meu tio não alimentou aquela situação, e casou com outra. Cá para nós, conhecendo bem o meu tio como conheço, penso que possivelmente, “não foi ele” rsrsrsr. Dada como curada, mais do que uma vez, não sei muito bem porquê, a doença retornava, e vinha sempre com mais força. Entretanto Milú casou. E infernizou a vida ao coitado do marido.Nessa altura eu já pouco convivia com ela. Mas sei que continuava a eterna revoltada, que não acreditava no bem, para ela só o mal existia. Até que 13 anos após ter odoecido, ela baixou ao Sanatório do Lumiar, hoje conhecido por Hospital Polido Valente, e lá, entre uma e outra hemoptize, sempre sem Fé e sem Esperança, possuida, por uma enorme revolta, acabou por falecer, aos 26 anos de idade. Por tudo isto, Milú foi a morte. O meu tio Zé, mais ou menos, em meados dos acontecimentos atrás relatados, conheceu a que é hoje minha tia, e que tinha, na altura mais 3 irmãs e 1 irmão, mais novos. Quando o meu tio casou, tinha eu 4 anos, e já via Graças a Deus, foi padrinho de casamento o meu avô paterno, nunca percebi bem porquê mas enfim. Como a senhora com quem o meu avô vivia, precisava duma criada, simpatizou com Clementina, irmã da minha tia, que era também muito bonita, e tinha na altura 12 anos. Assim, Clementina foi trabalhar para casa do meu avô. Mas este meu avô, valha a verdade, e á luz dos acontecimedntos recentes da nossa sociedade, foi também pedófilo, pois já com 47 anos de idade, seduziu a menina de 14 anos. Contudo, foi um amor verdadeiro, e juntou os trapinhos com ela, deixando a tal madama. Clementina, engravidou aos 15 anos. Durante a gravidez, e não sei como, contraiu também tuberculose. Eu era pequena, pois tenho mais 7 anos que o meu tio, filho dela, e não sei bem como tudo aconteceu. Sei que o bébé nasceu, veio para casa dos avós, e a Clementina, ficou internada no hospital. Este internamento prolongou-se por 10 meses. Durante esse longo tempo, ela nunca viu o filho. Mas nunca perdeu a Fé, nem a Esperança. Um dia, ouvi contar, depois duma radiografia, foi-lhe sentenciado um corte de costelas, termo que então se usava, para designar uma intervenção cirurgica aos pulmões. Contava ela que nesse dia, orou, orou muito, para que lhe fosse dada a graça da cura, a fim de poder conhecer e criar o filhinho. Cansada adormeceu, e dizia que, teria sido acordada com um leve afago, e que quando abriu os olhos, viu a figura da Imaculada Conceição, que a afagou, e que lhe teria deixado sobre os pés um pedacinho de tule, uma reliquia que ela guardou sempre, com toda a fé e respeito. O certo é, que ao fazerem-lhe novos exames, preparativos da intervenção cirurgica, os médicos verificaram que ela não tinha o mais leve vestígio de tuberculose. Clementina, voltou para casa, criou o filho, e foi mãe de outro 2 anos mais tarde. Muito trabalhadora, foi uma moira de trabalho toda a sua vida. Mas também foi uma mulher boa, doce, meiga,e que nunca se revoltou contra a vida. Temente a Deus, pessoa de muita fé, sempre seguiu a sua vida com muita alegria de a viver. Por esta altura, e como o meu avô era meu padrinho, eu passei a chamar-lhe madrinha, pois não me parecia berm chamar avó a quem era mais velha do que eu 8 anos rsrsrsrsr. Lembro-me que o meu avô esteve muito mal com uma trombose, Clementina, tratou-o com desvelo, apegou-se á sua Fé, fez uma promessa a Srª de Fátima, e o meu avô curou-se, sem sequelas. A Fé move montanhos, assim se diz. Só que mais tarde, levado por outra seita religiosa, o meu avô renegava aqueles acontecimentos, dizendo serem obras do demo. Mas Clementina, muito embora não o contrariasse, sempre acreditou. E foi essa sua confiança, e esse seu acreditar, que lhe deram força, para viver, e ser feliz. Faleceu há 3 meses, com 77 anos, e deixou muita saudade. Clementina, foi a vida! Quero ainda frizar, que estes 2 casos, de doença, ocorreram na mesma altura, sensivelmente, e elas tinham, pouca diferença de idade, Milú era só uns 2 anos mais velha. E conheciam-se. Lylybety
Publicada por lylybety em 9:29 PM  
Etiquetas: contos, morte e vida num sanatorio

terça-feira, setembro 08, 2009

O QUE MINHA AVÓ ME ENSINOU

Uma pessoa pertence ao lugar aonde quer ir. (Whernher von Braun.)
************* Olá... Quero que tenha um Bom Dia! Alguém me diz sinceramente sinceramente: O que significa o pensamento de Von Braun ? Então me diga, se em algum momento você não desejou muito estar em outro lugar, em outra cidade, numa outra casa, talvez trabalhando em outra organização? Quando essa possibilidade estiver mais evidente, não fica uma sensação agradável de que aquele desejo está se realizando? Agora vou mudar um pouco a “brincadeira” Pense em alguma situação, uma pessoa com quem, ou um lugar, aonde você verdadeiramente gostaria de estar agora! Por que não você está lá? Poderia conseguir a realização deste desejo daqui algum tempo? Um mês, um semestre, um ano, alguns anos? Que variáveis impedem te impedem dessa realização? E se você realmente conseguisse esse objectivo, como seria sua vida? Calma Já encerrar meu “interrogatório”. Apenas quis tratar desta questão com você, por que o pensamento de Von Braun, deu aquele abanão que nos tira do lugar. Primeiro por que ele é o pai do foguete Saturno V que levou os astronautas Americanos à Lua. Como tal sonhava chegar a outros lugares, estar em outros lugares. Assim contribuiu para que sua espécie (humana) alcançasse um mundo totalmente inacessível e desconhecido até então. Assim somos nós, muitas vezes imaginamos, desejamos estar em outro lugar, por diversos motivos, que chegamos sentir já fazer parte daquele lugar, ou de estar com alguma pessoa. Porém, ficamos frustrados, ou simplesmente aceitamos a não realização, por que no fundo desconhecemos os reais motivos que nos impedem. *********************************** A verdadeira sabedoria consiste em se conhecer a própria ignorância. (Sócrates) Agora gostaria de saber, se você já desejou alcançar a “iluminação” algum dia? É um desejo que muitas pessoas perseguem de alguma forma. Pode ser que não conheçam esse desejo íntimo por esse nome! Alguns chamam de Céu, outros de paraíso, enfim, cada cultura pode criar a própria nomenclatura. O nome realmente é o que menos importa. Eu particularmente vou chamar esse processo de: Evolução! Está combinado então? Mas, para ficar melhor nosso entendimento sobre isto, deixe-me contar uma pequena história, que ouvi á minha avózinha sobre a “iluminação”. Certo dia, um cidadão tomou uma resolução! Iria dedicar sua vida à meditação. Decidiu que iria para um mosteiro no alto de uma grande montanha, com objectivo de encontrar a iluminação. Viajou muitos dias e ao chegar em frente ao portão principal do mosteiro, encontrou aquele que seria o seu mestre. Aquele homem, foi recebido com muito amor pelos monges que há muitos anos viviam naquele mosteiro. O homem então, dizia a todos: - Vim para buscar minha iluminação. Passados alguns anos, o agora novo monge começou a ficar descontente com a sua situação, pois não conseguia encontrar o caminho da luz. Procurou o mestre e disse-lhe: - Amado mestre, ensinaste muitas coisas belas e importantes nesta minha caminhada, mas ainda não consegui alcançar a iluminação em minha vida. Quero desistir da vida de monge e voltar para a minha aldeia. E o mestre respondeu: - Tudo bem! Já que você está desistindo desta vida de meditação, quero acompanha-lo na descida da montanha. Amanhã, as 4 horas da manhã, estarei esperando no portão principal do mosteiro, para começarmos a descida. No horário marcado, o homem que estava desistindo de sua vida de monge, encontrou o seu mestre. Ao sair do mosteiro o mestre lhe perguntou: - Querido filho, o que estás vendo neste momento? O homem respondeu. - Mestre: vejo o orvalho da madrugada, sinto o cheiro das flores, percebo o céu estrelado e uma lua maravilhosa. Continuaram descendo a montanha. Passada uma hora de caminhada, o mestre pergunta: - E nesta parte da montanha, o que está vendo? - A resposta foi: - Vejo os primeiros raios de sol, escuto o canto dos pássaros e sinto a doce brisa da manhã penetrando em todo o meu ser. Assim continuavam a descer a grande montanha. Passadas algumas horas, o mestre voltou com a mesma pergunta. Recebeu como resposta: - Neste trecho da montanha, sinto o calor do sol, o som do riacho, o orvalho evaporando e os animais silvestres em harmonia com toda a natureza. Seguiram a caminhada. Chegaram ao pé da montanha ao meio-dia. Outra vez o mestre fez a mesma pergunta! E obteve como resposta então: - Vejo como a montanha é bela, as árvores da floresta, o riacho doce que circunda o vale, o camponês cuidando da plantação de arroz. Vejo também uma criança feliz brincando com os seus amigos. Então o mestre lhe falou: - Agora você já poderá voltar para o mosteiro. Espantado, o homem perguntou qual seria a razão da volta ao mosteiro. O mestre respondeu: - Porque você já encontrou a Iluminação. - Como assim? - Muito simples. Em cada etapa da descida da montanha você percebeu a importância de cada detalhe da natureza, compreendendo os seus sons, seus odores, suas imagens, suas cores e sua vida. Assim é que devemos ver e interpretar esta longa caminhada. A isto tudo, nós chamamos de ILUMINAÇÃO. A maravilha da vida é assim! A cada degrau devemos olhar para beleza que ela nos oferece. Mas para isso acontecer de verdade é preciso envolver-se de corpo e alma com a vida que vivemos! Pense...e VIVA

SILENCIO, PAZ OU SOLIDÃO?

Chegou do emprego cansada, afinal era o fim de uma semana de trabalho com um horário extenso e cansativo. Pensou para si própria que apesar do cansaço poderia ler todos os mails que não tinha lido, abrir todas as cartas que se foram amontoando ao longo da semana, ver televisão ou simplesmente não fazer nada e ir dormir cedo. Por volta das dez horas da noite, já estava a semicerrar os olhos e pensou que não tardaria muito em ir deitar-se e ler até adormecer. Aquele livro pousado na sua mesa de cabeceira à cerca de dois meses já a incomodava. Até era interessante, caso contrário já o teria posto de parte, simplesmente nos últimos tempos, só conseguia ler duas ou três paginas por noite. No entanto, ao ler um mail que um amigo lhe enviara, reparou num link de um site de musica. Não resistindo ao apelo implícito, foi ao PC , abriu o site indicado e com um sorriso pensou que este seu amigo de longa data sempre tivera bom gosto e a conhecia bem. Deliciada, não sentiu mais o sono e o cansaço e enquanto escutava a música, pegou numa caneta e em várias folhas brancas e começou a escrever. Era noite já alta e ela ouvindo musica de um site da Internet e a escrever os seus pensamentos mais íntimos, foi invadida por uma sensação de conforto e de paz, como há muito não sentia. De tempos a tempos, parava de escrever, fechava os olhos e languidamente deixava que a musica a invadisse, transportando-a para mundos de sonhos e fantasia, de amor e sensualidade. Pensava nele, mas estranhamente não se sentia sozinha ou triste. A solidão por vezes fazia-se sentir, mas ela ao contrário de muita gente, até gostava de alguns momentos em que se sentia afastada de tudo e do silencio que a rodeava. Lembrou-se de uma grande amiga, que se lamentava muitas vezes, por não ter um minuto que fosse, só para estar com ela própria, sozinha e em silêncio total. A noite avançava e ela pensava em todas as pessoas que tinham feito parte da sua vida. Teve saudades dos amigos que não abraçava havia tempo, dos amigos que já tinham partido prematuramente, dos amores que tivera, nas oportunidades não aproveitadas. Sentia que grande parte da sua vida já tinha passado, no entanto isso não a entristeceu, pelo contrário, fez com que ela entendesse, naquela noite de primavera e de repentina insónia, que queria continuar a viver intensamente todos os momentos, como aquele em que sozinha e em silencio apenas lhe chegavam baixinho os sons da musica. Bem haja o seu amigo, por lhe ter lembrado que a música Era uma grande companheira. Tranquilizante e sadia. Quem se sentia só? Ela? Não jamais. Apenas sentia UMA ENORME PAZ! Lylybety

sábado, julho 07, 2007

INDECISÕES

Não pode ser! Isto é uma loucura! Não é possível! Amanhã vou por tudo em pratos limpos. Vociferava Luís Miguel andando de um lado para o outro, parecendo um tigre enjaulado. Subitamente para em frente ao espelho do guarda fatos, e, fazendo um ar muito austero e compenetrado diz: - Laura tenho algo de importante a dizer-te. O nosso romance chegou ao fim. Já não te amo. Tu com as tuas maneiras bruscas acabaste com o nosso amor. Ponto final e acabou-se. Luís e Laura conheceram-se três anos antes numa festa de aniversário. Tinha sido amor á primeira vista. Ao fim de dois meses de se conhecerem resolveram partilhar as suas vidas e o seu apartamento. Foram três anos de felicidade, com algumas questiúnculas pelo meio como é natural, entre qualquer casal. Mas agora Luís estava cansado. Via todos os seus amigos com uma vida completamente livre, e, ele sentia-se preso. Acorrentado a Laura que o seguia para todo lado, como é usual entre qualquer casal que se ama. Só que Luís chegara á conclusão de que não amava mais a companheira. Assim resolveu ter uma conversa com ela, e, dizer-lhe duma vez por todas que o seu romance tinha acabado. Faria isso no dia seguinte. Laura era enfermeira, uma moça bonita elegante, de grandes olhos castanhos, com um olhar dulcíssimo. Amava Luís quase com idolatria, e, sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Afinal Luís era aquilo a que na gíria se chama um pão. Alto robusto, de rosto oval moreno, onde brilhavam uns olhos pretos que Laura achava serem mais lindos que estrelas. Sentia-se invejada pelas companheiras. Naquele dia, chegou a casa, e para sua surpresa tinha a mesa posta, com duas velas acesas, e uma jarra com um lindo ramo de rosas vermelhas. Ficou surpreendida, pois não esperava aquele acolhimento por parte do seu amado companheiro. Sorridente foi até á cozinha, onde ele se esmerava a fazer o jantar, sorriu-lhe beijou-o e alegremente perguntou: - Então querido o que festejamos hoje? Ao que ele respondeu meio sisudo: - Tenho algo de importante para te comunicar. - Ah sim? Então vou tomar banho num instante enquanto acabas o jantar. Venho cansadíssima, hoje tive um dia para esquecer. Vai saber-me bem ficar em casa a conversar contigo. Alegremente lá foi para o seu banho. Entretanto Luís murmurava entre dentes tudo o que tinha para lhe dizer “ pois minha querida estou farto acabou-se. Vou deixar-te. E cada um vai seguir rumos diferentes, espero que continuemos amigos, afinal já há três anos que vivemos juntos. Nenhum de nós pode encontrar melhor amigo, não concordas? Já tinha posto o jantar na mesa, e o espumante no gelo, quando ela alegre e feliz chega á cozinha. Vinha de roupão, o cabelo ainda molhado preso num rabo de cavalo, o que lhe fazia sobressair a beleza natural do rosto. Destapou a travessa e quase gritou: Lagosta? Deve ser algo de muito importante o que me vais dizer. Deixa-me adivinhar foste finalmente promovido a director? Dizendo isto sentou-se. Luís sentou-se em frente dela, encheu uma taça de espumante e começou: - Laura, a nossa vida vai ter de mudar. Não consigo mais viver contigo…. -Ao ouvir aquilo ela fica de olhos muito abertos, já com algumas lágrimas a quererem saltar. Parou de comer, fitando-o com um ar estarrecido. -Não podemos continuar assim. Não consigo viver contigo nesta situação, temos que mudar de vida…. Nesta altura ela salta da cadeira, corre para ele, abraça-o beija-o e diz-lhe: -Puxa, quase me assustaste. Neste momento o telefone toca, Laura vai atender, era sua amiga Constança, a perguntar se queriam ir ao cinema. Eufórica Laura responde: -Hoje não querida! Aconteceu uma coisa maravilhosa! O Luís pediu-me em casamento agora mesmo. Luís fica atónito ao ouvir aquilo e diz-lhe de longe: -Laura espera estás a fazer…. Pois foi Constança, continua Laura, foi uma surpresa. Ele é um querido. Foi um pedido feito com todo o requinte imagina que até fez lagosta para o jantar. Foi uma surpresa. Está bem querida, então até já. Pousou o telefone, e diz para um Luís completamente aparvalhado: -Querido, a Constança vem aí com mais alguns amigos. Mas Laura ….ia ele tentar explicar, mas, toca o telefone de novo, e Laura atende: -Olá mãe! Boa noite! Está tudo bem sim, tenho uma notícia espantosa para te contar. Claro que é boa, nem podia ser melhor, eu e o Luís vamos casar!! -Que bom minha filha! Eu e o pai vamos já para aí, temos de festejar, e já agora digo á tua irmã, não te preocupes se não tens jantar que chegue nós levamos. -Está bem mãe. Ficamos á espera Olha querido, diz ela radiante, os meus pais e a minha irmã também vem festejar este belo acontecimento connosco. Não é maravilhoso? Vou telefonar aos teus pais, não seria bonito não lhes dizer não achas? Laura parecia um torvelinho. -Mas Laura…qual quê? Laura já estava a falar com sua mãe. Olá D. Joana! Boa noite! Não nada de mal, antes pelo contrário, venham até cá, estamos a festejar. O Luís resolveu propor-me casamento. Sim, sim. Cá os esperamos então. Temos sim, hoje até há lagosta, deu uma gargalhada feliz. Claro que foi, o seu filho é um verdadeiro cavalheiro. Ok então até já. Mais uma vez, Luís tentou chamá-la á razão dizendo: -Laura estás a fazer uma enorme….. Toca a campainha da porta, ele vai abrir e, de supetão sente-se abraçado, beijado, e quase levado no ar por Constança e os amigos. Parabens! Gritavam todos quase em coro. Já não era sem tempo! Luís não sabia já, onde estava coitado, levado por aquele vendaval de gente. Entretanto chegaram os pais de ambos, e foi um esfuziante alarido. O sr. Geraldo pai de Luís abraçou-o dizendo: -Estou muito feliz filho. Já pensava que serias como os rapazes de agora, que fazem casa, constróem família, mas tudo sem ser devidamente formalizado com o casamento. E, não te preocupes, já que decidiste e muito bem, nós pagamos todas as despesas. E entre espumante, lagosta, frango assado, batatas fritas, cerveja, pasteis de bacalhau, a festa continuou animada para os mais jovens; enquanto os pais dos noivos, conversavam sobre os preparativos do casamento. Pobre Luís apanhado naquele furacão, nem sabia já o que dizer. Apenas se deixou levar. Ele há coisas! Ficou logo decidido que o casamento, simples, só com os amigos mais próximos seria dali a um mês, era só o tempo dos preparativos. Aquele mês passou, numa roda viva. Luís mal tinha tempo para pensar. E aqui estava ele, passeando dum lado para o outro, decidido a desmistificar toda aquela trapalhada. Ainda pensou consigo: vão-me matar. Vão chamar-me tudo e mais alguma coisa. Mas casar eu não caso. Isso nem morto. Gastaram dinheiro? Quem lhe encomendou o sermão? E Laura? Que culpa tenho dela ter compreendido mal e não me deixar explicar? Pior para ela. Mas eu não caso. Era o que faltava! Ficara decidido que Laura sairia de casa dos pais, juntamente com estes e Constança, já que esta ia ser sua madrinha, Luís sairia da casa onde viviam, acompanhado dos pais e de Lurdes irmã de Laura, que fizera questão de amadrinhar o cunhado. Tudo pronto, já em cima da hora, e, Luís não havia maneira de sair do quarto. Mais uma vez olhou em redor, dizendo: - Adeus. Vou e não volto mais. Só venho buscar as minhas malas, que felizmente estão feitas. Pensavam que era para sair em lua de mel? Pois enganam-se. Não vai haver lua de mel. Ou por outra vai haver sim, mas só para mim…os outros…quero lá saber dos outros? Alguém me perguntou alguma coisa? Ouviu bater á porta, era a cunhada chamando-o: - Vamos Luís! Aposto que a minha irmã não demora tanto a vestir-se. Até parece que estás com medo. A porta abriu-se, e José namorado de Lurdes diz-lhe a rir, anda lá pá. Estás com medo? Isso é comum a todos os felizes noivos. Por isso é que eu não me caso! E deu uma gargalhada, que deixou Luís ainda mais indisposto. Empurrão daqui, empurrão dali, lá foi até ao carro, dirigindo-se para a igreja. Quase não tinha tempo de chegar ao altar, entra Laura, ele olhou para ela, achou-a deslumbrante no seu vestido verde água, ela não quis ir de branco. O vestido era de corte simples mas muito elegante. Sobre os cabelos trazia, um pequeno chapéu ornamentado com pequenos botões de rosa da cor do vestido, e de onde pendia o véu também do mesmo tom. Estava linda! Ele pensou consigo: Vens muito linda, mas se pensas que assim me apanhas, vais ver a surpresa que irás ter. Ao som da marcha nupcial, e, pelo braço do pai, Laura desliza mais do que anda, a caminho do altar. Ouviu-se o resmalhar dos vestidos das senhoras, a sentarem-se. Laura chega ao altar e a cerimónia começa…. Luís não ouve nada. Está com o pensamento fixo no que se propões fazer, até que surge a pergunta sacramental, Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Silêncio….. O padre pergunta de novo: -, Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Como que acordado subitamente de um sonho, Luís vê á sua frente os olhos de Laura, inquietos…numa fracção de segundo ela lembrou-se de toda a cena da noite em que ele supostamente a tinha pedido em casamento; das suas interrupções, a que ela não prestara atenção. Laura tremeu ao ouvir de novo: - Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Olhou o noivo quase em pânico. Toda a igreja estava em absoluto e pesado silêncio. Subitamente ouve-se a voz de Luís dizer alto e claramente: Sim é! Ouviu-se um enorme e uníssono suspiro de alívio. O sr. Geraldo vermelho, afogueado, limpava com o lenço branco o suor que lhe corria em fio pelo rosto. D. Joana quase teve um fanico. Só D Ifigénia, e o sr. Rodrigues ficaram impávidos e serenos. Afinal, tinham passado por uma situação igualzinha, há quantos anos? Quase quarenta. Quarenta anos de uma enorme e calma felicidade; trocaram um beijo de amoroso carinho, murmurando: -Lembras-te? Parece que afinal todos os jovens têm medo de casar, como nós tivemos Após o lauto copo d’água os noivos sumiram-se em direcção á lua de mel…. E não é que na pressa Luís que tinha arrumado três malas só levou uma? E, foi exactamente a mais pequena. Afinal foi obrigado a voltar para sempre ao apartamento, donde saíra jurando nunca mais voltar…..
Maria Isabel Galveias (Lylybety)

domingo, março 04, 2007

ELA E…….ELES


ANDRÉ André foi o seu primeiro amor. Um amor de menina. Menina de pouco mais de onze anos. Foram criados juntos. Eram um grupo de garotos que juntos corriam pelos campos nos arredores de Lisboa.Ela lembra-se daquele dia em que estavam sentados junto do muro que separava a azinhaga da quinta.Dizia o “Alfinete”:- A Tininha é a minha namorada sabiam?- E a Guida é minha diz o “Malhado” assim chamado porque no seu cabelo louro tinha um madeixa branca, que lhe dava um ar diferente e meio azougado.Perante esta a firmação, o André levanta-se e do alto dos seu doze anos, pergunta muito zangado:- Que é isso? Então tu namoras comigo e agora namoras com ele?Admirada ela pergunta:- Namoro contigo?- Namoras pois. Há três anos- Bem, se namoro contigo não posso namorar com o “Malhado” diz ela na candura dos seu dez anos.Os anos passaram. A vida separou-os, mas no pensamento dela ficou sempre a lembrança daquele seu primeiro amor.Coisas da sua infância, que se desvaneceu no tempo. Passaram-se vinte e cinco anos. Ela estava de novo solteira. Naquela sexta feira, fazia anos. Decidiu oferecer a si mesma, numa romagem de saudade, visitar o seu velho bairro.Quando lá chegou, nada era igual. Só a igreja, um velho largo com o coreto, onde nos santos populares se faziam bailaricos, e, onde ela tanto brincara, e a avenida. Havia ainda a velha taberna, mais nada.Dirigiu-se á taberna, e perguntou pela Tininha da azinhaga. Disseram-lhe que trabalhava numa fábrica de material eléctrico, na zona velha.Dirigiu-se para lá, e, perguntou pela velha amiga ao porteiro. Este prontamente, foi chamá-la.Tininha veio ao portão acompanhada duma colega. Intrigada por não imaginar quem seria a “amiga” que a procurava.Ao ver a sua amiga de infância, as lágrimas vieram-lhe aos olhos, e emocionada diz para a colega:- Olha, esta minha amiga, é a grande paixão de meu irmão André.Guida, ficou perplexa ao ouvir isto, e responde:- Ora, onde isso já vai. Ambos seguimos rumos diferentescasamos, cada um tem a sua vida. Foram coisas da nossa infância.- Coisas de infância não. Eu casei com o “Alfinete”. O André diz muitas vezes, o que os separou foi o mar. E foi também a tua pressa em te casares. Ou já te esqueceste que casaste antes dele? - Ele também parecia que não se importava comigo. Já te esqueceste das gaifonas que ele me fazia com Ausenta?E das vezes que eu passava na tua casa a caminho de casa dos meus tios? Se eu lhe dizia que ia pela rua de baixo, ele ia comigo até á Calçadinha, e seguia pela rua de cima, ou vice versa. Por isso deixei de o levar a sério. Mas também nunca o esqueci.- Se quiseres saber dele, ele trabalha na Centieira. Queres o telefone do trabalho dele? Se lhe telefonares verás. Vai ficar louco de alegria.- Está bem. Eu também vou gostar de falar com ele.As amigas conversaram muito. Afinal havia vinte e cinco anos que não se viam. E tinham tanto para contar uma á outra. Falaram dos amigos de infância dos irmãos de Tininha. O pai desta tinha falecido. A mãe vivia com o Mário seu irmão mais velho. Enfim foi um longo fim de tarde. Depois de jantar com a amiga, Guida voltou para sua casa. Levava o sonho de se encontrar de novo com André. Como iria ser o seu encontro?Mal podia esperar por segunda feira.Depois de um banho relaxante, foi dormir. Mas o sono negava-se a aparecer. Á sua lembrança vinham retalhos de episódios passados com André.A velha oliveira, onde os três amigos tinha colocado três baloiços, para se baloiçarem ao mesmo tempo. Os campos de seara verdejante, onde eles brincavam aos policias e ladrões. As armadilhas que ele armava antes de ir trabalhar, e, que lhes providenciava pássaros, que foram muitas vezes o jantar de sua família. As enormes caminhadas a apanhar caracóis. As vezes que iam apanhar as azeitonas que caiam das oliveiras pela azinhaga, e com as quais a mãe dele fazia azeite para todo ano. Tantas recordações!Lembrou-se daquela noite, em que ele a foi levar a casa e a beijou. Foi o beijo mais estranho que alguma vez sentiu. Era escaldante, no verdadeiro sentido da palavra. Hoje pergunta-se como é possível num garoto de catorze anos haver tanto calor. Aquele beijo escaldante e ao mesmo tempo suave e terno assustou-a, mas, também a marcou para sempre. Ao fim de tantos anos, ainda sentia na sua boca a incandescência daquele beijo apaixonado.Mas, o que tem de ser tem de ser. A vida separou-os, e nunca mais houve entre eles alguma carícia mais ousada.A verdade, é que durante todo o tempo que viveram afastados, nunca a imagem daqueles cabelos loiros, e daqueles olhos muito azuis se afastou da sua memória. Sempre que havia um desaguisado com seu marido, ela pensava: - O André nunca me faria isto. E foi vivendo com a imagem do seu primeiro amor bem escondida no fundo do seu coração. Chegou a tão esperada segunda feira. Há hora do almoço ela telefonou-lhe. Atendeu o segurança, e ela pediu para falar com o sr André Silva, fiel de armazém. Quem devo anunciar pergunta o segurança, divertida ela responde, diga-lhe que é uma velha amiga.Quando ele atendeu o telefone, ela cantarolou: - há muito, muito tempo eras tu uma criança que brincavas ao baloiço e ao pião….Do outro lado, ouviu-se um grito de profundo regozijo: Guidinha!!!! Onde estás minha querida? Há tanto tempo que sonho contigo e sem saber de ti, por favor diz-me onde estás quero ver-te Ela disse-lhe que regressara a Lisboa, trabalhava nos laboratórios Davis, e que também gostaria muito de o ver.Depois de uma longa conversa que parecia que ele não queria terminar nunca, combinaram encontrar-se no trabalho dele por volta das cinco horas, ela saía ás quatro dava tempo mais que suficiente.Sempre escrava do relógio e da pontualidade, á hora marcada ela estava ao portão da fábrica.Ele já tinha dado ordem ao segurança para a mandar subir ao escritório dele logo que ela chegasse, e, assim foi.Ficaram frente a frente, ele completamente extasiado de a ver. Não era por nada, mas Guida estava no apogeu dos seus trinta e poucos anos. Sempre fora uma garota elegante e bonita, mas agora era uma mulher madura, senhora de si e sem que ela própria se apercebesse com um charme, que, fazia voltar a cabeça de qualquer homem que se prezasse de o ser.Enquanto ela a olhava, e quase a comia com os olhos, ela ficou a olhar para aquele pigmeu que teria por aí um metro e meio, continuava com os cabelos loiros, mas tinha os olhos azuis mais deslavados que alguma vez vira. Sorriu e pensou: - e foi por este meia leca, feio e sem graça que eu suspirei mais de vinte anos? Realmente a infância e até a pré adolescência eram muito parvas.Ele olhando-a diz:- a idade não perdoa, mas tu estás muito para alem do que eu imaginava. Eu recordava esta menina, e puxando da carteira mostra uma foto dela, tirada de kodak, em que ela teria uns dez anos, usava trancinhas, e era uma gracinha lá isso era. E continua, hoje estás uma linda mulher madura, com tudo certo no sítio certo. E sem mais aquelas puxou-a para si com força e beijou-a num longo e profundo beijo, que ela nem teve tempo de rejeitar, mas sentiu um certo asco. Num frenesim louco ele abraçava-a e beijava-a desvairado, e só não a possuiu ali mesmo porque o telefone tocou, felizmente, ela estava tão aturdida que nem se debatia nem dizia nada.Ele só murmurava no seu ouvido, quero-te, desejo-te desde a minha infância tens de ser minha.Mas recomposta ela respondeu suavemente: - Calma, o mundo não vai acabar hoje. E, como tinha chegado a hora dele sair, saíram os dois, a custo ele tentava esconder a sua enorme excitação.No dia seguinte ele iria ao médico, na Avª da Liberdade, combinaram almoçar juntos, e assim fizeram. Depois de almoço e como ainda era cedo para a consulta, ele levou-a a um hotel, desejoso de a possuir. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela foi. Ao principio resistiu, mas ele suplicou-lhe quase a chorar que a deixasse possui-la, ou ainda faria um disparate.Com toda a calma, ela deitou-se, e, pasme-se nem se despiu, apenas levantou a saia. Foi mesmo do género descarrega e deixa-me da mão. Claro que ele ficou um pouco desencantado com a situação, embora ela fosse mestra em fingir. Como já eram horas da consulta, vão os dois até á avenida. Iam lado a lado conversando, sem nada que aparentasse terem estado há pouco tempo na cama os dois, quando de repente ela sente um puxão num braço. Imagine-se, era Linda, a mulher dele, que desconfiou dele sair cedo e não levar o carro, resolveu ir ver se ele tinha ido mesmo ao médico. Guida apanhou um susto, só pensou que fosse algum louco que por ali andasse. Linda tinha conhecido Guida há vinte anos, sempre sentira uns enormes ciúmes porque toda a família de André dizia que devia ter sido Guida a casar com ele, estava completamente desvairada. Com toda a calma, Guida convidou-a a tomar um refresco enquanto André ia á consulta. Acalmou-a, conversou com ela, ficando a saber que ele, na véspera ao chegar a casa tinha dito que queria divorciar-se, porque o amor da vida dele tinha voltado.Guida deu uma boa gargalhada, e tranquilizou Linda, dizendo-lhe: - Lembra-se quando ele veio ferido do ultramar, e ninguem queria que casasse consigo, porque a Linda tinha cortado o cabelo enquanto ele esteve ausente(só de lembrar isso sente vontade de rir, quanta ignorância havia naqueles tempos, até parecia que cortar o cabelo era crime) Fui eu quem o convenceu a casar consigo, porque apesar da familia dele murmurar eu achava que a Linda era uma moça honesta e que o amava. Amava-o mais a ele que ele a si, lembra-se?Por isso, fique tranquila. Eu não lhe vou roubar o seu marido. Alíás nem tenho intenção de voltar a casar. Uma vez chegou. Lavada em lágrimas, Linda desfez-se em desculpas, perante Guida que se sentia culpadissima. Contudo quando André chegou viu-as a conversar afavelmente. Decidiram irem levar Guida a casa dos tios, para que eles vissem que ela estava acompanhada pelo casal. Para Guida, dona e senhora do seu nariz, isso não tinha a menor relevância, mas André, cavalheiro á moda antiga fez questão. Lá foram. A partir daí nunca mais se encontraram. Ele telefonava-lhe para o trabalho, mas ela pedia á colega que dissesse que ela já lá não trabalhava. Um dia, Guida estava sozinha e teve que atender o telefone. Era Tininha, querendo saber dela. Respondeu que já não trabalhava, tinha ido para a Lisnave. Tininha respondeu, se não trabalha aí tem a voz muito igual á dela. Só lhe quero dizer que o meu irmão anda completamente transtornado e queria vê-la. Lamento minha senhora, mas a D. Guida já não trabalha cá.E assim acabou uma história de amor que durou mais de vinte anos para terminar em vinte e quatro horas. Vá lá entender-se os desígnios da vida.Já dizia o professor Agostinho da Silva: - Não faças planos para a vida, pois não sabes os planos que a vida fez para ti.
Arroja, 3 de março de 2007
Maria Isabel Galveias

sábado, janeiro 06, 2007

RECORDAR É VIVER


Hoje fui a uma entrevista a fim de arranjar um emprego, para as minhas horas livres. Foi uma autentica romaria de saudade. A entrevista era nos Olivais. Olivais Sul como agora é designado. No tempo em que lá vivi, era Olivais somente..... Teria que estar ás 13h no n.º 56 da rua Cidade da Beira. Não sabia onde era, no meu tempo por ali só havia quintas, e oliveiras. Fui cedo, para descobrir o local, e, chegar a horas á entrevista, perguntei ao motorista da Carris, onde ficava a dita rua, ele parecia não saber ao certo. Nesta bem fadada terra, se alguém souber alguma coisa vai preso, por certo. Desci do autocarro, na rua de Nampula, passei nas ruas de Quelimane, João Belo, Lourenço Marques, Inhambane.......No espaço de uma hora percorri, Moçambique do Rovuma ao Maputo, até que chaguei á rua Cidade da Beira. Esta rua fica perto do lindo Vale do Silêncio, esse sim, é do meu tempo. Para fazer tempo, pois era ainda muito cedo, entrei num café, e, quando estava tomando a minha bica, entrou um senhor, muito bem disposto e galhofeiro. A empregada começou a brincar com ele, e, ele acabou por dizer que tinha 80 anos. (Não lhe daria mais de 50) Como boa Moçambique, logo entrei na conversa, perguntando se ele era daqueles sítios, ao que ele respondeu: - Sou aqui nascido e criado minha senhora, já lá vão 80 anos.... - Então, deve lembrar-se da Quinta dos Serrões... - Se me lembro! Havia lá uma fábrica de Curtumes, trabalhei lá - Conheceu portanto, o meu avô, ele era o encarregado da fábrica. - Se conheci. Era boa praça esse sr. Paulino, era assim o nome dele não era? - Era sim. Eu fui para essa quinta, quando tinha 18 meses, vivi lá até perto dos 14 anos.... - Ai minha senhora, isso é que eram tempos...! - É verdade! Sabe? Estes Olivais de hoje não me dizem nada, já nem sei onde estou. - Aqui é a quinta do Patacão, lembra-se? - Lembro sim, vim muitas vezes aqui apanhar caracóis, com a Rosita da Alaguesa. - A Rosita? A senhora conheceu a Rosita? - Sim. Fomos criadas juntas. Nunca mais a vi! - Ela mora na Rua Alves Gouveia vejo-a muitas vezes. - Quando estiver com ela, diga-lhe por favor, que encontrou a Belinha dos Serrões, e que ela lhe manda um grande abraço está bem? - Minha senhora, ainda hoje lhe vou dar esse abraço, fique descansada! - O senhor lembra-se, dos bailaricos dos Santos Populares, que havia no Rossio? (Largo da Viscondessa) - Se me lembro... Eram outros tempos. Quantas vezes lá ouvimos os Lírios, no tempo do Jacinto Lopes... - É verdade. Ele cantava tão bem! Havia também os Mensageiros do Ritmo, com o João Loureiro....Era a época do give, das rumbas, o xa-xa-xa, o tango, enfim nesses tempos não eram ainda consideradas danças de salão, dançavam-se em todos os bailaricos... - Minha senhora, nem imagina, quanto me alegro, por poder falar desses tempos, com quem os viveu...Esta mocidade de agora, tem tudo o que nós não tivemos, mas com tanta coisa, que nem sabíamos que existia, nós fomos muito mais felizes. Fala-se da fome que se passava nesse tempo...Eu nunca tive fome! Haviam tantas árvores de fruta, e fruta da boa, sem corantes nem conservantes, como a de agora. Ia-mos á xinxada, e enchia-mos a barriga. Os donos faziam de conta que não nos viam, e no fundo era a maneira da rapaziada se divertir. Não havia droga, nem nada disto que o dito progresso nos trouxe. Eram quase horas da minha entrevista. Com alguma pena, pois havia ainda tanta coisa a recordar ,despedi-me do senhor, dizendo: - Bem tenho de ir. Talvez nos encontremos por aqui mais vezes. - Aí minha senhora. Oxalá assim seja. Hoje foi um dos dias mais felizes que tive. É tão bom recordar o passado! O senhor tinha lágrimas nos olhos, e eu também. Afinal, não sou só eu que tenho saudades, há mais quem tenha. Acrescento, que consegui o tal emprego. Fico duas vezes feliz. Uma porque o consegui, outra porque vou ter oportunidade de voltar a ver aquele senhor, que tanto gosta, como eu, de recordar o nosso lindo bairro dos Olivais, quando ele tinha realmente oliveiras, e, muitas quintas, com alegres camponesas, com quem eu cantava ao desafio. Foi um lindo dia para mim..... Arroja-21-7-2004 Maria Isabel Galveias