sábado, janeiro 17, 2009

MEUS PENSAMENTOS, SEMPRE EM CONTRA MÃO


Ás vezes, oiço e vejo pessoas chorarem
Dizendo que têm saudades das coisas boas que a vida
Lhes levou, revoltando-se contra ela, vida.
Eu, como sou do contra, não tenho motivos para
Ser contra a vida, mas sim para lhe agradecer.
Sinto saudades sim, como não sentir?
Mas, se a vida me levou as coisas boas, foi apenas
Porque ao longo do tempo, me presenteou com elas.
Assim, bendigo a vida, que me fez rir, chorar, temer,
Mas também me fez viver.
Também, vejo muitos lamentarem-se, porque estão velhos,
Eu não me sinto velha, embora o seja.
Apenas sinto que vivi muito.
E foi muito bom tudo o que o que vivi, e o muito que aprendi
Maria Isabel Galveias

sábado, julho 07, 2007

INDECISÕES

Não pode ser! Isto é uma loucura! Não é possível! Amanhã vou por tudo em pratos limpos. Vociferava Luís Miguel andando de um lado para o outro, parecendo um tigre enjaulado. Subitamente para em frente ao espelho do guarda fatos, e, fazendo um ar muito austero e compenetrado diz: - Laura tenho algo de importante a dizer-te. O nosso romance chegou ao fim. Já não te amo. Tu com as tuas maneiras bruscas acabaste com o nosso amor. Ponto final e acabou-se. Luís e Laura conheceram-se três anos antes numa festa de aniversário. Tinha sido amor á primeira vista. Ao fim de dois meses de se conhecerem resolveram partilhar as suas vidas e o seu apartamento. Foram três anos de felicidade, com algumas questiúnculas pelo meio como é natural, entre qualquer casal. Mas agora Luís estava cansado. Via todos os seus amigos com uma vida completamente livre, e, ele sentia-se preso. Acorrentado a Laura que o seguia para todo lado, como é usual entre qualquer casal que se ama. Só que Luís chegara á conclusão de que não amava mais a companheira. Assim resolveu ter uma conversa com ela, e, dizer-lhe duma vez por todas que o seu romance tinha acabado. Faria isso no dia seguinte. Laura era enfermeira, uma moça bonita elegante, de grandes olhos castanhos, com um olhar dulcíssimo. Amava Luís quase com idolatria, e, sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Afinal Luís era aquilo a que na gíria se chama um pão. Alto robusto, de rosto oval moreno, onde brilhavam uns olhos pretos que Laura achava serem mais lindos que estrelas. Sentia-se invejada pelas companheiras. Naquele dia, chegou a casa, e para sua surpresa tinha a mesa posta, com duas velas acesas, e uma jarra com um lindo ramo de rosas vermelhas. Ficou surpreendida, pois não esperava aquele acolhimento por parte do seu amado companheiro. Sorridente foi até á cozinha, onde ele se esmerava a fazer o jantar, sorriu-lhe beijou-o e alegremente perguntou: - Então querido o que festejamos hoje? Ao que ele respondeu meio sisudo: - Tenho algo de importante para te comunicar. - Ah sim? Então vou tomar banho num instante enquanto acabas o jantar. Venho cansadíssima, hoje tive um dia para esquecer. Vai saber-me bem ficar em casa a conversar contigo. Alegremente lá foi para o seu banho. Entretanto Luís murmurava entre dentes tudo o que tinha para lhe dizer “ pois minha querida estou farto acabou-se. Vou deixar-te. E cada um vai seguir rumos diferentes, espero que continuemos amigos, afinal já há três anos que vivemos juntos. Nenhum de nós pode encontrar melhor amigo, não concordas? Já tinha posto o jantar na mesa, e o espumante no gelo, quando ela alegre e feliz chega á cozinha. Vinha de roupão, o cabelo ainda molhado preso num rabo de cavalo, o que lhe fazia sobressair a beleza natural do rosto. Destapou a travessa e quase gritou: Lagosta? Deve ser algo de muito importante o que me vais dizer. Deixa-me adivinhar foste finalmente promovido a director? Dizendo isto sentou-se. Luís sentou-se em frente dela, encheu uma taça de espumante e começou: - Laura, a nossa vida vai ter de mudar. Não consigo mais viver contigo…. -Ao ouvir aquilo ela fica de olhos muito abertos, já com algumas lágrimas a quererem saltar. Parou de comer, fitando-o com um ar estarrecido. -Não podemos continuar assim. Não consigo viver contigo nesta situação, temos que mudar de vida…. Nesta altura ela salta da cadeira, corre para ele, abraça-o beija-o e diz-lhe: -Puxa, quase me assustaste. Neste momento o telefone toca, Laura vai atender, era sua amiga Constança, a perguntar se queriam ir ao cinema. Eufórica Laura responde: -Hoje não querida! Aconteceu uma coisa maravilhosa! O Luís pediu-me em casamento agora mesmo. Luís fica atónito ao ouvir aquilo e diz-lhe de longe: -Laura espera estás a fazer…. Pois foi Constança, continua Laura, foi uma surpresa. Ele é um querido. Foi um pedido feito com todo o requinte imagina que até fez lagosta para o jantar. Foi uma surpresa. Está bem querida, então até já. Pousou o telefone, e diz para um Luís completamente aparvalhado: -Querido, a Constança vem aí com mais alguns amigos. Mas Laura ….ia ele tentar explicar, mas, toca o telefone de novo, e Laura atende: -Olá mãe! Boa noite! Está tudo bem sim, tenho uma notícia espantosa para te contar. Claro que é boa, nem podia ser melhor, eu e o Luís vamos casar!! -Que bom minha filha! Eu e o pai vamos já para aí, temos de festejar, e já agora digo á tua irmã, não te preocupes se não tens jantar que chegue nós levamos. -Está bem mãe. Ficamos á espera Olha querido, diz ela radiante, os meus pais e a minha irmã também vem festejar este belo acontecimento connosco. Não é maravilhoso? Vou telefonar aos teus pais, não seria bonito não lhes dizer não achas? Laura parecia um torvelinho. -Mas Laura…qual quê? Laura já estava a falar com sua mãe. Olá D. Joana! Boa noite! Não nada de mal, antes pelo contrário, venham até cá, estamos a festejar. O Luís resolveu propor-me casamento. Sim, sim. Cá os esperamos então. Temos sim, hoje até há lagosta, deu uma gargalhada feliz. Claro que foi, o seu filho é um verdadeiro cavalheiro. Ok então até já. Mais uma vez, Luís tentou chamá-la á razão dizendo: -Laura estás a fazer uma enorme….. Toca a campainha da porta, ele vai abrir e, de supetão sente-se abraçado, beijado, e quase levado no ar por Constança e os amigos. Parabens! Gritavam todos quase em coro. Já não era sem tempo! Luís não sabia já, onde estava coitado, levado por aquele vendaval de gente. Entretanto chegaram os pais de ambos, e foi um esfuziante alarido. O sr. Geraldo pai de Luís abraçou-o dizendo: -Estou muito feliz filho. Já pensava que serias como os rapazes de agora, que fazem casa, constróem família, mas tudo sem ser devidamente formalizado com o casamento. E, não te preocupes, já que decidiste e muito bem, nós pagamos todas as despesas. E entre espumante, lagosta, frango assado, batatas fritas, cerveja, pasteis de bacalhau, a festa continuou animada para os mais jovens; enquanto os pais dos noivos, conversavam sobre os preparativos do casamento. Pobre Luís apanhado naquele furacão, nem sabia já o que dizer. Apenas se deixou levar. Ele há coisas! Ficou logo decidido que o casamento, simples, só com os amigos mais próximos seria dali a um mês, era só o tempo dos preparativos. Aquele mês passou, numa roda viva. Luís mal tinha tempo para pensar. E aqui estava ele, passeando dum lado para o outro, decidido a desmistificar toda aquela trapalhada. Ainda pensou consigo: vão-me matar. Vão chamar-me tudo e mais alguma coisa. Mas casar eu não caso. Isso nem morto. Gastaram dinheiro? Quem lhe encomendou o sermão? E Laura? Que culpa tenho dela ter compreendido mal e não me deixar explicar? Pior para ela. Mas eu não caso. Era o que faltava! Ficara decidido que Laura sairia de casa dos pais, juntamente com estes e Constança, já que esta ia ser sua madrinha, Luís sairia da casa onde viviam, acompanhado dos pais e de Lurdes irmã de Laura, que fizera questão de amadrinhar o cunhado. Tudo pronto, já em cima da hora, e, Luís não havia maneira de sair do quarto. Mais uma vez olhou em redor, dizendo: - Adeus. Vou e não volto mais. Só venho buscar as minhas malas, que felizmente estão feitas. Pensavam que era para sair em lua de mel? Pois enganam-se. Não vai haver lua de mel. Ou por outra vai haver sim, mas só para mim…os outros…quero lá saber dos outros? Alguém me perguntou alguma coisa? Ouviu bater á porta, era a cunhada chamando-o: - Vamos Luís! Aposto que a minha irmã não demora tanto a vestir-se. Até parece que estás com medo. A porta abriu-se, e José namorado de Lurdes diz-lhe a rir, anda lá pá. Estás com medo? Isso é comum a todos os felizes noivos. Por isso é que eu não me caso! E deu uma gargalhada, que deixou Luís ainda mais indisposto. Empurrão daqui, empurrão dali, lá foi até ao carro, dirigindo-se para a igreja. Quase não tinha tempo de chegar ao altar, entra Laura, ele olhou para ela, achou-a deslumbrante no seu vestido verde água, ela não quis ir de branco. O vestido era de corte simples mas muito elegante. Sobre os cabelos trazia, um pequeno chapéu ornamentado com pequenos botões de rosa da cor do vestido, e de onde pendia o véu também do mesmo tom. Estava linda! Ele pensou consigo: Vens muito linda, mas se pensas que assim me apanhas, vais ver a surpresa que irás ter. Ao som da marcha nupcial, e, pelo braço do pai, Laura desliza mais do que anda, a caminho do altar. Ouviu-se o resmalhar dos vestidos das senhoras, a sentarem-se. Laura chega ao altar e a cerimónia começa…. Luís não ouve nada. Está com o pensamento fixo no que se propões fazer, até que surge a pergunta sacramental, Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Silêncio….. O padre pergunta de novo: -, Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Como que acordado subitamente de um sonho, Luís vê á sua frente os olhos de Laura, inquietos…numa fracção de segundo ela lembrou-se de toda a cena da noite em que ele supostamente a tinha pedido em casamento; das suas interrupções, a que ela não prestara atenção. Laura tremeu ao ouvir de novo: - Luís Miguel de Sousa, é de sua livre vontade casar com Laura Raquel Rodrigues? Olhou o noivo quase em pânico. Toda a igreja estava em absoluto e pesado silêncio. Subitamente ouve-se a voz de Luís dizer alto e claramente: Sim é! Ouviu-se um enorme e uníssono suspiro de alívio. O sr. Geraldo vermelho, afogueado, limpava com o lenço branco o suor que lhe corria em fio pelo rosto. D. Joana quase teve um fanico. Só D Ifigénia, e o sr. Rodrigues ficaram impávidos e serenos. Afinal, tinham passado por uma situação igualzinha, há quantos anos? Quase quarenta. Quarenta anos de uma enorme e calma felicidade; trocaram um beijo de amoroso carinho, murmurando: -Lembras-te? Parece que afinal todos os jovens têm medo de casar, como nós tivemos Após o lauto copo d’água os noivos sumiram-se em direcção á lua de mel…. E não é que na pressa Luís que tinha arrumado três malas só levou uma? E, foi exactamente a mais pequena. Afinal foi obrigado a voltar para sempre ao apartamento, donde saíra jurando nunca mais voltar…..
Maria Isabel Galveias (Lylybety)

domingo, março 04, 2007

ELA E…….ELES


ANDRÉ André foi o seu primeiro amor. Um amor de menina. Menina de pouco mais de onze anos. Foram criados juntos. Eram um grupo de garotos que juntos corriam pelos campos nos arredores de Lisboa.Ela lembra-se daquele dia em que estavam sentados junto do muro que separava a azinhaga da quinta.Dizia o “Alfinete”:- A Tininha é a minha namorada sabiam?- E a Guida é minha diz o “Malhado” assim chamado porque no seu cabelo louro tinha um madeixa branca, que lhe dava um ar diferente e meio azougado.Perante esta a firmação, o André levanta-se e do alto dos seu doze anos, pergunta muito zangado:- Que é isso? Então tu namoras comigo e agora namoras com ele?Admirada ela pergunta:- Namoro contigo?- Namoras pois. Há três anos- Bem, se namoro contigo não posso namorar com o “Malhado” diz ela na candura dos seu dez anos.Os anos passaram. A vida separou-os, mas no pensamento dela ficou sempre a lembrança daquele seu primeiro amor.Coisas da sua infância, que se desvaneceu no tempo. Passaram-se vinte e cinco anos. Ela estava de novo solteira. Naquela sexta feira, fazia anos. Decidiu oferecer a si mesma, numa romagem de saudade, visitar o seu velho bairro.Quando lá chegou, nada era igual. Só a igreja, um velho largo com o coreto, onde nos santos populares se faziam bailaricos, e, onde ela tanto brincara, e a avenida. Havia ainda a velha taberna, mais nada.Dirigiu-se á taberna, e perguntou pela Tininha da azinhaga. Disseram-lhe que trabalhava numa fábrica de material eléctrico, na zona velha.Dirigiu-se para lá, e, perguntou pela velha amiga ao porteiro. Este prontamente, foi chamá-la.Tininha veio ao portão acompanhada duma colega. Intrigada por não imaginar quem seria a “amiga” que a procurava.Ao ver a sua amiga de infância, as lágrimas vieram-lhe aos olhos, e emocionada diz para a colega:- Olha, esta minha amiga, é a grande paixão de meu irmão André.Guida, ficou perplexa ao ouvir isto, e responde:- Ora, onde isso já vai. Ambos seguimos rumos diferentescasamos, cada um tem a sua vida. Foram coisas da nossa infância.- Coisas de infância não. Eu casei com o “Alfinete”. O André diz muitas vezes, o que os separou foi o mar. E foi também a tua pressa em te casares. Ou já te esqueceste que casaste antes dele? - Ele também parecia que não se importava comigo. Já te esqueceste das gaifonas que ele me fazia com Ausenta?E das vezes que eu passava na tua casa a caminho de casa dos meus tios? Se eu lhe dizia que ia pela rua de baixo, ele ia comigo até á Calçadinha, e seguia pela rua de cima, ou vice versa. Por isso deixei de o levar a sério. Mas também nunca o esqueci.- Se quiseres saber dele, ele trabalha na Centieira. Queres o telefone do trabalho dele? Se lhe telefonares verás. Vai ficar louco de alegria.- Está bem. Eu também vou gostar de falar com ele.As amigas conversaram muito. Afinal havia vinte e cinco anos que não se viam. E tinham tanto para contar uma á outra. Falaram dos amigos de infância dos irmãos de Tininha. O pai desta tinha falecido. A mãe vivia com o Mário seu irmão mais velho. Enfim foi um longo fim de tarde. Depois de jantar com a amiga, Guida voltou para sua casa. Levava o sonho de se encontrar de novo com André. Como iria ser o seu encontro?Mal podia esperar por segunda feira.Depois de um banho relaxante, foi dormir. Mas o sono negava-se a aparecer. Á sua lembrança vinham retalhos de episódios passados com André.A velha oliveira, onde os três amigos tinha colocado três baloiços, para se baloiçarem ao mesmo tempo. Os campos de seara verdejante, onde eles brincavam aos policias e ladrões. As armadilhas que ele armava antes de ir trabalhar, e, que lhes providenciava pássaros, que foram muitas vezes o jantar de sua família. As enormes caminhadas a apanhar caracóis. As vezes que iam apanhar as azeitonas que caiam das oliveiras pela azinhaga, e com as quais a mãe dele fazia azeite para todo ano. Tantas recordações!Lembrou-se daquela noite, em que ele a foi levar a casa e a beijou. Foi o beijo mais estranho que alguma vez sentiu. Era escaldante, no verdadeiro sentido da palavra. Hoje pergunta-se como é possível num garoto de catorze anos haver tanto calor. Aquele beijo escaldante e ao mesmo tempo suave e terno assustou-a, mas, também a marcou para sempre. Ao fim de tantos anos, ainda sentia na sua boca a incandescência daquele beijo apaixonado.Mas, o que tem de ser tem de ser. A vida separou-os, e nunca mais houve entre eles alguma carícia mais ousada.A verdade, é que durante todo o tempo que viveram afastados, nunca a imagem daqueles cabelos loiros, e daqueles olhos muito azuis se afastou da sua memória. Sempre que havia um desaguisado com seu marido, ela pensava: - O André nunca me faria isto. E foi vivendo com a imagem do seu primeiro amor bem escondida no fundo do seu coração. Chegou a tão esperada segunda feira. Há hora do almoço ela telefonou-lhe. Atendeu o segurança, e ela pediu para falar com o sr André Silva, fiel de armazém. Quem devo anunciar pergunta o segurança, divertida ela responde, diga-lhe que é uma velha amiga.Quando ele atendeu o telefone, ela cantarolou: - há muito, muito tempo eras tu uma criança que brincavas ao baloiço e ao pião….Do outro lado, ouviu-se um grito de profundo regozijo: Guidinha!!!! Onde estás minha querida? Há tanto tempo que sonho contigo e sem saber de ti, por favor diz-me onde estás quero ver-te Ela disse-lhe que regressara a Lisboa, trabalhava nos laboratórios Davis, e que também gostaria muito de o ver.Depois de uma longa conversa que parecia que ele não queria terminar nunca, combinaram encontrar-se no trabalho dele por volta das cinco horas, ela saía ás quatro dava tempo mais que suficiente.Sempre escrava do relógio e da pontualidade, á hora marcada ela estava ao portão da fábrica.Ele já tinha dado ordem ao segurança para a mandar subir ao escritório dele logo que ela chegasse, e, assim foi.Ficaram frente a frente, ele completamente extasiado de a ver. Não era por nada, mas Guida estava no apogeu dos seus trinta e poucos anos. Sempre fora uma garota elegante e bonita, mas agora era uma mulher madura, senhora de si e sem que ela própria se apercebesse com um charme, que, fazia voltar a cabeça de qualquer homem que se prezasse de o ser.Enquanto ela a olhava, e quase a comia com os olhos, ela ficou a olhar para aquele pigmeu que teria por aí um metro e meio, continuava com os cabelos loiros, mas tinha os olhos azuis mais deslavados que alguma vez vira. Sorriu e pensou: - e foi por este meia leca, feio e sem graça que eu suspirei mais de vinte anos? Realmente a infância e até a pré adolescência eram muito parvas.Ele olhando-a diz:- a idade não perdoa, mas tu estás muito para alem do que eu imaginava. Eu recordava esta menina, e puxando da carteira mostra uma foto dela, tirada de kodak, em que ela teria uns dez anos, usava trancinhas, e era uma gracinha lá isso era. E continua, hoje estás uma linda mulher madura, com tudo certo no sítio certo. E sem mais aquelas puxou-a para si com força e beijou-a num longo e profundo beijo, que ela nem teve tempo de rejeitar, mas sentiu um certo asco. Num frenesim louco ele abraçava-a e beijava-a desvairado, e só não a possuiu ali mesmo porque o telefone tocou, felizmente, ela estava tão aturdida que nem se debatia nem dizia nada.Ele só murmurava no seu ouvido, quero-te, desejo-te desde a minha infância tens de ser minha.Mas recomposta ela respondeu suavemente: - Calma, o mundo não vai acabar hoje. E, como tinha chegado a hora dele sair, saíram os dois, a custo ele tentava esconder a sua enorme excitação.No dia seguinte ele iria ao médico, na Avª da Liberdade, combinaram almoçar juntos, e assim fizeram. Depois de almoço e como ainda era cedo para a consulta, ele levou-a a um hotel, desejoso de a possuir. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela foi. Ao principio resistiu, mas ele suplicou-lhe quase a chorar que a deixasse possui-la, ou ainda faria um disparate.Com toda a calma, ela deitou-se, e, pasme-se nem se despiu, apenas levantou a saia. Foi mesmo do género descarrega e deixa-me da mão. Claro que ele ficou um pouco desencantado com a situação, embora ela fosse mestra em fingir. Como já eram horas da consulta, vão os dois até á avenida. Iam lado a lado conversando, sem nada que aparentasse terem estado há pouco tempo na cama os dois, quando de repente ela sente um puxão num braço. Imagine-se, era Linda, a mulher dele, que desconfiou dele sair cedo e não levar o carro, resolveu ir ver se ele tinha ido mesmo ao médico. Guida apanhou um susto, só pensou que fosse algum louco que por ali andasse. Linda tinha conhecido Guida há vinte anos, sempre sentira uns enormes ciúmes porque toda a família de André dizia que devia ter sido Guida a casar com ele, estava completamente desvairada. Com toda a calma, Guida convidou-a a tomar um refresco enquanto André ia á consulta. Acalmou-a, conversou com ela, ficando a saber que ele, na véspera ao chegar a casa tinha dito que queria divorciar-se, porque o amor da vida dele tinha voltado.Guida deu uma boa gargalhada, e tranquilizou Linda, dizendo-lhe: - Lembra-se quando ele veio ferido do ultramar, e ninguem queria que casasse consigo, porque a Linda tinha cortado o cabelo enquanto ele esteve ausente(só de lembrar isso sente vontade de rir, quanta ignorância havia naqueles tempos, até parecia que cortar o cabelo era crime) Fui eu quem o convenceu a casar consigo, porque apesar da familia dele murmurar eu achava que a Linda era uma moça honesta e que o amava. Amava-o mais a ele que ele a si, lembra-se?Por isso, fique tranquila. Eu não lhe vou roubar o seu marido. Alíás nem tenho intenção de voltar a casar. Uma vez chegou. Lavada em lágrimas, Linda desfez-se em desculpas, perante Guida que se sentia culpadissima. Contudo quando André chegou viu-as a conversar afavelmente. Decidiram irem levar Guida a casa dos tios, para que eles vissem que ela estava acompanhada pelo casal. Para Guida, dona e senhora do seu nariz, isso não tinha a menor relevância, mas André, cavalheiro á moda antiga fez questão. Lá foram. A partir daí nunca mais se encontraram. Ele telefonava-lhe para o trabalho, mas ela pedia á colega que dissesse que ela já lá não trabalhava. Um dia, Guida estava sozinha e teve que atender o telefone. Era Tininha, querendo saber dela. Respondeu que já não trabalhava, tinha ido para a Lisnave. Tininha respondeu, se não trabalha aí tem a voz muito igual á dela. Só lhe quero dizer que o meu irmão anda completamente transtornado e queria vê-la. Lamento minha senhora, mas a D. Guida já não trabalha cá.E assim acabou uma história de amor que durou mais de vinte anos para terminar em vinte e quatro horas. Vá lá entender-se os desígnios da vida.Já dizia o professor Agostinho da Silva: - Não faças planos para a vida, pois não sabes os planos que a vida fez para ti.
Arroja, 3 de março de 2007
Maria Isabel Galveias

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

AI QUE MAL SE ESCREVE…!

Há já algum tempo que nada escrevo. A minha musa inspiradora deve ter-me deixado, para ir inspirar outro alguém, ou então foi de férias.
Ou será antes preguiça? Não sei muito bem. Mas deve ser preguiça, ando num deixa andar, ou então fica para logo ou para amanhã, e os dias vão passando e eu nada escrevo e nada faço, neste marasmo que é a minha vida.
Ás vezes penso, devo estar doente. Mas por outro lado sinto-me bem. Apenas esta apatia, venho da cama para o PC e vou do PC para a cama, isto a cada meia hora.
Inacreditável, mas dei-me conta de que não tomava banho há mais de uma semana!Só posso estar doente!Mas também, para quê? Eu não saio de casa, não faço nada, não transpiro, não preciso de tomar banho.
Afinal ninguém me visita e não vejo ninguém. Só quando vou á rua, aí sim tenho mesmo de ir pró chuveiro quando chego a casa.
Mas foi exactamente por isso que me apercebi que há mais de uma semana não tomava duche. Se fui á rua há mais de uma semana!
Agora pergunto: - Eu vivo?Acho que apenas vegeto. Enfim cá vou indo neste conformismo estranho.
Ah! Mas quero ilucidar, saí agorinha mesmo do duche heheheheh.Tudo porque vou com a Lurdes ao médico.
Ela foi operada a um joelho e vai tirar os pontos, como não pode conduzir levo-a eu. Mas, saberei ainda conduzir? Há tanto tempo que não o faço, a última vez foi antes do Natal. O pobre do meu carro está para ali paradito, um dia destes não funciona.
Mas o que me fez hoje escrever umas patacudas, foi o facto de ter andado por aqui, pela net, bisbilhotando, de blog em blog, leio uma coisa aqui, outra ali e com pouca vontade, nem sei bem porquê, vou que nem um pardalito, pulando de lado para lado sem muito interesse, no que vejo.
Contudo algo me despertou a atenção, e foi ao fim de algum tempo, ai como eu ando!
Verifiquei que na maioria dos ditos blgs quem escreve fá-lo de uma maneira pouco ortodoxa, ou convencional, assassinando a língua pátria duma maneira assaz indecente.
Isto complica-me com o meu sistema nervoso, e com o meu sentido de tentar bem falar e escrever português.
Será por ser velha?Penso que não! Penso que o idioma de qualquer país, é a sua maior riqueza, por isso não gosto de ver a minha língua materna tão mal escrita.
Que nos telemóveis se abreviem as palavras para que se escreva o máximo de texto, ainda se compreende, mas aqui? Há tanto espaço para quê escrever “k” em vez de quê, e “tb” em vez de também e por aí fora?
Constato que alguns até ostentam um “canudo universitário” assim sendo, admite-se uma escrita destas?
Eu, definitivamente não consigo admitir!
Dirá quem me lê:
- Não admites porque és velha e ranzinza!
Será então por isso?Será que como eu tenho preguiça de fazer alguma coisa, eles têm preguiça de escrever bem?
Será antes com intenção de poupar as letras do teclado, ou os dedos que teclam?
Mas ainda há algo muito pior, é que os jovens escrevem assim nas escolas, e os professores acham bem!Posso ser preguiçosa.
Posso não tomar duche todos os dias.
Posso ficar trancafiada em casa dias e dias a fio.
Posso até ler na transversal qualquer coisa nos blogs ou afins, mas não posso tolerar uma língua portuguesa mal falada e mal escrita.
Chamem-me bota de elástico, velha, ranzinza o que quiserem, mas dá-me um nó no estômago ver tal coisa. Que diriam Camões, Eça ou Aquilino?Pensariam como eu? Aposto que sim.
Arroja, 9 de Fevereiro de 2007
Maria Isabel Galveias